Conto de Natal
29 de dezembro de 2008 CopiCola
Autor: José Manuel Fonseca
Membro do Complexity and Management Centre e colaborador do painel quinzenal Discutir a Gestão
[Copiado e colado do Diário Econômico]
Adaptado por: Ingo Porto
Era uma vez um país. E nesse país vivia um rapazinho. O pai, preocupado com o futuro da criança e acabada a quarta classe, colocou-o a aprender um ofício. No caso, o de cortador de carnes num açougue. E o menino cedo evidenciou uma aptidão natural para o negócio. De tal sorte, que se estabeleceu por conta própria ainda que muito jovem. Foi consolidando a sua ‘network’ de fornecedores e construiu uma adequada “base de clientes” utilizando de um belíssimo “marketing de proximidade” e lábia. Isso, e uma balança cuja regulação permitia “poupar” cem gramas de carne em cada quilograma vendido, que ao fim de cada dia, em média, davam dois quilitos a favor de futuros ‘cash-in-flows’. De modos que ao fim do primeiro ano, conseguiu economizar para um carro seminovo com jantes de liga leve.
Ao fim de algum tempo, já devidamente casado e com filhos, compra um apartamento à beira-mar em Boa Viagem, em dinheiro vivo, que ele era pessoa de boas contas e boa palavra e não exigia registos desnecessários das suas transações comerciais.
Os negócios foram progredindo paulatinamente. Mais dois ou três açougues, entre o São Paulo e Recife, já em parceria com o filho mais velho, igualmente dotado na gestão das balanças e na gestão de recursos humanos com pronúncia do leste.
Nos anos seguintes, aventura-se na moderna distribuição com uma cadeia de sete ou oito supermercados, para a zona do ABC paulista, em parceria com o cunhado, irmão da terceira mulher, que conhecera enquanto sua empregada num ‘stand’ de automóveis seminovos que possuia com um sócio na zona sul de Recife e cujos veículos curiosamente nunca tinham mais do que 20.000 quilómetros andados nas mãos de esposas de médicos dos hospitais civis da cidade. Os negócios vão prosperando e o portfolio diversificado suficiente para oferecer apartamentos de dois pavimento em Copacabana para todos os filhos que entretanto se vão casando.
A economia evolui e juntamente com ela o nosso herói. Com uma filha licenciada em Gestão de Turismo abre algumas escolas de formação profissional em artes de serviços como cabeleireiros e manicures. Com a mais nova, abre uma empresa de “eventos” que organiza casamentos e ‘castings’ para programas de televisão. É acionista de um ou dois bancos. Medalha de ouro de três concelhos. Financia todos os partidos por igual.
Já quase reformado, a tragédia abate-se sobre este empreendedor. Veio sem aviso. Os supermercados estavam, afinal, todos em nome de uma ‘holding’ do cunhado e de uma portuguesa que aquele conhecera num bar de alterne que pertencia ao sócio do ‘stand’ de automóveis. A mulher foge com o gerente de um dos “franchises”, não sem antes proceder a levantamentos significativos nas contas ‘off shore’. Uma inspeção descobre-lhe a fraude das balanças e aplica pesadas multas. Porventura enviada a mando do presidente da junta de freguesia, por causa da sua teimosia em não pagar umas facturas de tipografias dos cartazes da última campanha eleitoral. Seja como for, o ‘word of mouth’ espalha-se e a sólida base de clientes torna-se volátil e finalmente os açougues fecham. O banco onde tinha colocado a maior parte da liquidez comunica-lhe que os fundos de pensão sofreram um rombo com a crise do sector financeiro.
Outra maçadora inspeção revela “fraudes”, “peculato de uso” e outras misteriosas expressões que, certamente, se devem a mau trabalho do contabilista encarregado de organizar os papéis dos centros de formação. No fundo nada que um bom advogado não saiba chutar para canto. Mas como a liquidez não abunda, e como os advogados não vendem fiado, tem de se desfazer de uns apartamentos, cuja venda mal cobre os custos das petições iniciais mais requerimentos e demais emolumentos que a sociedade de advogados explica em detalhe de ciência esotérica.
Tanto esforço para assegurar o futuro dos filhos, pelo menos estava respaldado no facto de todos serem, afinal, funcionários públicos com licença sem vencimento. Dos males, o menor.


dezembro 29th, 2008 at 10:31
Muito interessante esse artigo. Achava eu que querer levar vantagem em tudo era uma mania nacional, mas, ao ler o texto original, percebo que o pessoal da “terrinha” também é assim. Talvez seja uma mania de ser-humano, mesmo. Pena…